tri

na vitrola
doce aroma
invade a alma

Miles Davis
toca sempre
seu trompete

se num ar gélido
viaja o dó
nem sinto falta

pois que essa
nuvem tão cigana
vá embora

e nessa luz
que de serena
finda a calma

tal como é
velha amiga
tomo a desordem

desabafo,

“Astronauta, diz pra mim cadê você…

Bailarina não consegue mais viver.”

Tiê

o moço

terça-feira, 12 de janeiro de algum ano distante

Alone.
Pensava nessa pequena e tão devastadora palavra enquanto caminhava, parecia que as pedras faziam um ballet bonito quando chutadas, tantos saltos, tanta graça, pra quê?
Elas estavam prestes a morrer, se é que já haviam esperimentado a vida, eram pedras, oras… e mesmo assim cambaleavam com tanta graciosidade, como quem cumpre um gesto masoquista de agrado àquele que o tortura.
Haha, que irônico, as pedras gostavam dele.
E tudo o que aquele estranho ser mais queria era estar fora dali, correr para longe, para onde ninguém jamais pudesse sentir seu cheiro, ouvir sua voz, contemplar sua sombra.
Ele não merecia o mundo ou o mundo não o merecia?
Seu tênis parecia encolher sob seus pés, o sol se projetava de forma torturante, tanto xadrez num mundo cinza.
Ele queria voltar pra casa, mas não podia, não agora, não queria encontrar o resultado de sua própria explosão, não queria se deparar com os olhares penosos e avaliadores, os tons especulativos e aquela velha sensação de todo mundo querer uma parte doseu próprio mundo.
Rá, mal dava pra ele mesmo.
É isso, não voltaria, jamais voltaria, não havia mais nada para fazer agora, não fazia mais sentido.
Como se até ali alguma coisa tivesse feito..
Pegou sua mochila, limpou os óculos e continuou andando, não sabia para onde iria, mas tinha certeza de que seria um lugar infinitamente melhor que aquele que o criou.
“E se eu fosse o primeiro a voltar pra mudar o que eu fiz  quem então agora eu seria?”
A frase flutuou dois metros a frente do seu olhar e depois se perdeu.
Já não era mais hora.

Sobre a decadência

terça-feira, 20 de outubro


Cabelos desarrumados e emaranhados, mas não mais desarrumados que emaranhados, entende?

A mesma roupa da noite passada, estando esta agora com marcas das almofadas do sofá, da comida rápida que você fez no escuro ao chegar em casa e do álcool que você não lembra de ter ingerido, sabendo apenas que o fez por intermédio da enxaqueca, velha amiga.

As roupas descartadas pelo seu humor mutavelmente crítico (que se criou logo antes de você sair) ainda se vêem jogadas sobre a cama. Ou melhor, não se vêem, pois se fossem capaz de assimilar noções de consciência já teriam voltado para o armário num gesto de recuperação a dignidade que lhes restava… caso ainda restasse algo quando a humilhação de aparentemente não servir se fez concluída.

Casa completamente vazia, paredes cinzas caídas num esqueiro.

3 horas da tarde, você acabou de almoçar.

É domingo, e amanhã não tem feriado, será uma segunda-feira qualquer, e qualquer sendo torna-se dolorosa como se nunca houvesse sido a si mesma antes, mesmo que por um momento sua repetição parecesse infinita, e como todo o infinito, inexistente.

A caixa de pizza jaz sobre o balcão, o papelão agora num marrom escuro, molhado pelo acúmulo de gotículas que vinham da torneira.

Uma rodela de tomate esverdeado por orégano trazia uma cratera em formato de dedão do pé. Parecia bem incomum que você tivesse pisado nela mesmo depois de derruba-la da caixa.

E por pior que pudesse parecer, não havia razão nenhuma que justificasse o fato de ser incomum, pois uma simples rodela de tomate não inspirava atenção das razões e justificativas.

Pobre rodela, nascida para viver infortúnios em série.

Talvez você lembrasse de algo sobre a noite anterior. Provavelmente não.

El Condor Passa

terça-feira, 29 de dezembro

No alto das montanhas ele pensa e sente, ignora o frio, mesmo estando debaixo de mil mantas em xadrez, ele olha seu café, observa a fumaça passear pela neve sobre o asfalto, se encanta pela forma como só ela consegue vagar tranquilamente naquele lugar tão infernal, tão perto do céu, tão dentro de si.

Estar ali no alto, entre a imensidão branca, é o mesmo que estar perdido em si mesmo, ele pode ouvir o som das flautas, ele pode tocar flautas, mas o som nunca chegará compleatemente a si, passará pelos seus ouvidos sem que ele ouça realmente, a melodia é triste e acolhedora, como um lamento conformado, ela traz rugas e se propõe a esquentar novamente o café, ralha com ele e dá sábios conselhos, fala sobre as verdades da vida e diz que aquilo já deveria ter chegado ao fim, é hora do viajante descer das montanhas e encarar a realidade externa, na qual ele se sente tão perdido.

Não, não… terríveis expectativas o aguardariam lá, pessoas são como neve, elas estão em torno de vocẽ, e ao mesmo tempo parecem estar tão envoltas nelas mesmas que nem sequer ali estão, são sem estar, não são. Pessoas vagam indiferentes ao cenário, ao clima, ao som, tê-las ou não tê-las não faria qualquer diferença naquele vazio, a solidão do viajante é como uma doença sem cura que vai se aprofundando com o tempo e com o frio, ele deseja estar junto mas parece-lhe errado, multidões de neve jamais dariam a ele a companhia necessária.

Naquele caderno estavam frases tão soltas, tão desconexas, as orações mais sinceras.

De repente ele percebeu que aquilo tudo não faria diferença nenhuma. Arrancou todas as páginas, uma a uma, até as que estavam em branco, pois seus pensamentos posteriores eram tão indiferentes a si quanto os anteriores.

Só sobrou uma capa dura de couro.

Ele a depositou na neve e com um ultimo espirro levantou dali para nunca mais voltar.

Às 4:56 da manhã do dia seguinte um grupo de pescadores se deparou com a estranha cena: um corpo envolto em sangue e folhas de caderno.

Afins

Um baque quase surdo o fez acordar do seu sonho quase como um devanio, carregando uma expressão de quem se espantava por saber que estava dormindo.

O lençol estava quase todo ao chão, não fazia ideia do que caíra dali.

Imaginação sua. talvez.

Achou melhor por fim levantar-se, o quarto estava abafado e escuro, não tinha a menor noção de quanto tempo fazia que estava dormindo, suas ultimas lembranças eram vagamente confirmadas pelas garrafas de vinho jogadas num canto do quarto.

Cambaleou pesadamente amassando algumas folhas com seus pés. Livros pelo chão, discos pelo chão, filmes pelo chão. Sua vida parecia esparramada.

Tomou o conteúdo que restava numa das garrafas de vinho num só gole, melhor maneira não há para começar o dia.

Foi andando até a janela e pôs-se a abrir cautelosamente, a luz queimava seus olhos. Surpresa não tão importante assim, o céu já se fazia rosado, o relógio dizia que dalí a 15 minutos faria 5 horas da tarde, e ele nunca mentia com coisas importantes, a não ser uns meros minutos mortais.

Ele havia dormido o dia inteiro, e ainda assim nada havia perdido.

Segurava a garrafa vazia de vinho e pensava cafeína, era tudo o que ele precisava agora.

O café não ficava longe dali, vestiu-se distraídamente e desceu as escadas sem lembrar de trancar a porta como sempre.

Seu fusca verde sorria convidativo refletindo todos os raios solares possíveis, entrou no carro como quem sobe numa montanha russa e logo pôs Nina Simone para cantar seus anseios, já que por si mesmo ignora-los era mais que o suficiente.

As ruas estavam em sépia, os odores um tanto ácidos, e o som de fora sempre ríspido.

O calor de dentro do café era um tanto reconfortante, observou seu vazio, o som do silêncio, quebrado apenas por uns poucos que liam enquanto se embriagavam de amargura proveniente da cafeína.

Ficou olhando tudo ali sentado, lembrou de quando era criança e sempre tinha vontade de tomar café como os outros sentados a mesa, parecia um padrão, ou um vício, agora não importava mais, ele tentou tocar em suas lembranças, aforgar-se naquela nostalgia, mas parecia que quanto mais se aproximava maior era o vácuo entre ele e os seus fantasmas, eram os únicos humanos aos quais ele podia atribuir uns pronomes possessivos, só o que lhe pertencia eram as pessoas de seu passado, agora ele era prisioneiro de sua liberdade sufocante e solitária, não manter laços afetivos dotados de um mínimo de profundidade, ou sequer manter-se interessado por mais que alguns minutos em alguém.

Seus vizinhos eram efusivos e barulhentos, seus colegas da faculdade afetados e superficiais, fazia fotografias em revistas e jornais de arte, e dessa forma aprendeu que os jornalistas são todos uns drogados desagradáveis disprovidos de nariz, pois só assim sendo para não sentirem o cheiro insuportávelmente forte de nicotina que exalavam.

Estava perdido numa cidade coberta por nuvens, até gostava de chuva, mas já estava começando a se sentir um tanto sufocado, onde quer que fosse parecia sempre um ambiente fechado e pequeno, cheiro de pessoas respirando e deixando tudo abafado daquela forma. Smiths não o salvaria, Dylan não o salvaria, Belle & Sebastian não o salvaria, tampouco os Beatles ou Mutantes.

Almodóvar, Allen, Tarantino, Burton, Fellini, Truffaut, Godard e todos aqueles que lhe deram o prazer do vício podiam apenas transportá-lo para longe dali, por duas horas mais ou menos, mas depois sempre precisava voltar a sua realidade insuportavelmente insuficiente.

O frio da noite começava a entrar junto com algumas pessoas que batiam a porta do café atrás de seus pés, como se precisassem obsessivamente anunciar sua chegada. Já era hora. Vestiu seu casaco e deixou o dinheiro no balcão mecanicamente, tomou um susto ao perceber que a noite chegara tão cedo para si, o frio era um divisor de sonhos, o azul marinho estrelado seria tema das mais belas e clichês fotografias sobre algo ainda sem nome, irritante como os nomes fugiam dele, como se quisessem puni-lo por usar as imagens em vez das palavras. Como se quisessem mantê-lo numa ilha, incomunicável sobre o que acontecia dentro de si.

De repente, assim como um tropeço, lhe ocorreu uma ideia.

Singular

ando endo indo

Pensava nisso enquanto caminhava pelas ruas largas da ilha, as casas coloridas cediam uma falsa esperança, pareciam ser suficientes, tudo aquilo que jamais seriam, que nada poderia ser. O vento era frio como sempre, os nativos perguntavam-se por que algum turista escolheria justamente a época de chuvas para ir visitar a ilha, alguns o perguntavam e outros… ele sabia que perguntavam a si, mas nem ousava responder, não entenderiam de forma alguma.

“É por que meu interior é frio, gelado como tomar um banho nesse mar de desventuras e logo depois despir-se na areia, deparando-se com o ar cruel tal qual facadas constantes que batizam o corpo, a dor intensa do físico, a dor insuportável do pensamento. Sendo o que sinto tão envolvido em tais paisagens, não aguento o calor do sol, a claridade queima meus olhos, e a multidão me leva a submergir em inconsciências tantas, paralelos de sonhos, dos que envelhecem.”

De forma alguma poderiam entender, aquilo que sentia era tão novo e pertencente a si que nem sequer palavras poderiam saber de sua essência, palavras só cabiam àquilo que já havia antes que fossem feitas, ali não se aplicariam mais, era necessário que se fizesse novas palavras, muitas novas palavras.

O gerúndio parecia um bom caminho para isso, sua ideia de ser constante e inevitável, como algo que depois de iniciado prosseguiria interminavelmente, desgastando e corroendo tudo a sua volta.

De repente a descrição não pareceu a melhor saída, agora ele queria se libertar, o tempo de entender já se fôra, ele fracassara.

Agora os verbos estavam num pretérito mais que perfeito, guardados para sempre nas lembranças de um jovem rapaz em seus 20 e poucos anos.

Não queria que tudo se transformasse em algo imperfeito, e dessa forma mergulhou em suas lembranças para nunca mais voltar.

Seu corpo foi encontrado algumas horas depois totalmente oco, o rapaz não estava mais ali e havia levado consigo seu coração, ele havia libertado-se de si mesmo, agora estava em fim livre.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.