
Um baque quase surdo o fez acordar do seu sonho quase como um devanio, carregando uma expressão de quem se espantava por saber que estava dormindo.
O lençol estava quase todo ao chão, não fazia ideia do que caíra dali.
Imaginação sua. talvez.
Achou melhor por fim levantar-se, o quarto estava abafado e escuro, não tinha a menor noção de quanto tempo fazia que estava dormindo, suas ultimas lembranças eram vagamente confirmadas pelas garrafas de vinho jogadas num canto do quarto.
Cambaleou pesadamente amassando algumas folhas com seus pés. Livros pelo chão, discos pelo chão, filmes pelo chão. Sua vida parecia esparramada.
Tomou o conteúdo que restava numa das garrafas de vinho num só gole, melhor maneira não há para começar o dia.
Foi andando até a janela e pôs-se a abrir cautelosamente, a luz queimava seus olhos. Surpresa não tão importante assim, o céu já se fazia rosado, o relógio dizia que dalí a 15 minutos faria 5 horas da tarde, e ele nunca mentia com coisas importantes, a não ser uns meros minutos mortais.
Ele havia dormido o dia inteiro, e ainda assim nada havia perdido.
Segurava a garrafa vazia de vinho e pensava cafeína, era tudo o que ele precisava agora.
O café não ficava longe dali, vestiu-se distraídamente e desceu as escadas sem lembrar de trancar a porta como sempre.
Seu fusca verde sorria convidativo refletindo todos os raios solares possíveis, entrou no carro como quem sobe numa montanha russa e logo pôs Nina Simone para cantar seus anseios, já que por si mesmo ignora-los era mais que o suficiente.
As ruas estavam em sépia, os odores um tanto ácidos, e o som de fora sempre ríspido.
O calor de dentro do café era um tanto reconfortante, observou seu vazio, o som do silêncio, quebrado apenas por uns poucos que liam enquanto se embriagavam de amargura proveniente da cafeína.
Ficou olhando tudo ali sentado, lembrou de quando era criança e sempre tinha vontade de tomar café como os outros sentados a mesa, parecia um padrão, ou um vício, agora não importava mais, ele tentou tocar em suas lembranças, aforgar-se naquela nostalgia, mas parecia que quanto mais se aproximava maior era o vácuo entre ele e os seus fantasmas, eram os únicos humanos aos quais ele podia atribuir uns pronomes possessivos, só o que lhe pertencia eram as pessoas de seu passado, agora ele era prisioneiro de sua liberdade sufocante e solitária, não manter laços afetivos dotados de um mínimo de profundidade, ou sequer manter-se interessado por mais que alguns minutos em alguém.
Seus vizinhos eram efusivos e barulhentos, seus colegas da faculdade afetados e superficiais, fazia fotografias em revistas e jornais de arte, e dessa forma aprendeu que os jornalistas são todos uns drogados desagradáveis disprovidos de nariz, pois só assim sendo para não sentirem o cheiro insuportávelmente forte de nicotina que exalavam.
Estava perdido numa cidade coberta por nuvens, até gostava de chuva, mas já estava começando a se sentir um tanto sufocado, onde quer que fosse parecia sempre um ambiente fechado e pequeno, cheiro de pessoas respirando e deixando tudo abafado daquela forma. Smiths não o salvaria, Dylan não o salvaria, Belle & Sebastian não o salvaria, tampouco os Beatles ou Mutantes.
Almodóvar, Allen, Tarantino, Burton, Fellini, Truffaut, Godard e todos aqueles que lhe deram o prazer do vício podiam apenas transportá-lo para longe dali, por duas horas mais ou menos, mas depois sempre precisava voltar a sua realidade insuportavelmente insuficiente.
O frio da noite começava a entrar junto com algumas pessoas que batiam a porta do café atrás de seus pés, como se precisassem obsessivamente anunciar sua chegada. Já era hora. Vestiu seu casaco e deixou o dinheiro no balcão mecanicamente, tomou um susto ao perceber que a noite chegara tão cedo para si, o frio era um divisor de sonhos, o azul marinho estrelado seria tema das mais belas e clichês fotografias sobre algo ainda sem nome, irritante como os nomes fugiam dele, como se quisessem puni-lo por usar as imagens em vez das palavras. Como se quisessem mantê-lo numa ilha, incomunicável sobre o que acontecia dentro de si.
De repente, assim como um tropeço, lhe ocorreu uma ideia.