Singular
ando endo indo
Pensava nisso enquanto caminhava pelas ruas largas da ilha, as casas coloridas cediam uma falsa esperança, pareciam ser suficientes, tudo aquilo que jamais seriam, que nada poderia ser. O vento era frio como sempre, os nativos perguntavam-se por que algum turista escolheria justamente a época de chuvas para ir visitar a ilha, alguns o perguntavam e outros… ele sabia que perguntavam a si, mas nem ousava responder, não entenderiam de forma alguma.
“É por que meu interior é frio, gelado como tomar um banho nesse mar de desventuras e logo depois despir-se na areia, deparando-se com o ar cruel tal qual facadas constantes que batizam o corpo, a dor intensa do físico, a dor insuportável do pensamento. Sendo o que sinto tão envolvido em tais paisagens, não aguento o calor do sol, a claridade queima meus olhos, e a multidão me leva a submergir em inconsciências tantas, paralelos de sonhos, dos que envelhecem.”
De forma alguma poderiam entender, aquilo que sentia era tão novo e pertencente a si que nem sequer palavras poderiam saber de sua essência, palavras só cabiam àquilo que já havia antes que fossem feitas, ali não se aplicariam mais, era necessário que se fizesse novas palavras, muitas novas palavras.
O gerúndio parecia um bom caminho para isso, sua ideia de ser constante e inevitável, como algo que depois de iniciado prosseguiria interminavelmente, desgastando e corroendo tudo a sua volta.
De repente a descrição não pareceu a melhor saída, agora ele queria se libertar, o tempo de entender já se fôra, ele fracassara.
Agora os verbos estavam num pretérito mais que perfeito, guardados para sempre nas lembranças de um jovem rapaz em seus 20 e poucos anos.
Não queria que tudo se transformasse em algo imperfeito, e dessa forma mergulhou em suas lembranças para nunca mais voltar.
Seu corpo foi encontrado algumas horas depois totalmente oco, o rapaz não estava mais ali e havia levado consigo seu coração, ele havia libertado-se de si mesmo, agora estava em fim livre.

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