Sobre a decadência
terça-feira, 20 de outubro

Cabelos desarrumados e emaranhados, mas não mais desarrumados que emaranhados, entende?
A mesma roupa da noite passada, estando esta agora com marcas das almofadas do sofá, da comida rápida que você fez no escuro ao chegar em casa e do álcool que você não lembra de ter ingerido, sabendo apenas que o fez por intermédio da enxaqueca, velha amiga.
As roupas descartadas pelo seu humor mutavelmente crítico (que se criou logo antes de você sair) ainda se vêem jogadas sobre a cama. Ou melhor, não se vêem, pois se fossem capaz de assimilar noções de consciência já teriam voltado para o armário num gesto de recuperação a dignidade que lhes restava… caso ainda restasse algo quando a humilhação de aparentemente não servir se fez concluída.
Casa completamente vazia, paredes cinzas caídas num esqueiro.
3 horas da tarde, você acabou de almoçar.
É domingo, e amanhã não tem feriado, será uma segunda-feira qualquer, e qualquer sendo torna-se dolorosa como se nunca houvesse sido a si mesma antes, mesmo que por um momento sua repetição parecesse infinita, e como todo o infinito, inexistente.
A caixa de pizza jaz sobre o balcão, o papelão agora num marrom escuro, molhado pelo acúmulo de gotículas que vinham da torneira.
Uma rodela de tomate esverdeado por orégano trazia uma cratera em formato de dedão do pé. Parecia bem incomum que você tivesse pisado nela mesmo depois de derruba-la da caixa.
E por pior que pudesse parecer, não havia razão nenhuma que justificasse o fato de ser incomum, pois uma simples rodela de tomate não inspirava atenção das razões e justificativas.
Pobre rodela, nascida para viver infortúnios em série.
Talvez você lembrasse de algo sobre a noite anterior. Provavelmente não.
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